Duas forças poderosas se enfrentam. Armas letais e destruidoras de ambos os lados operadas por ódios e medos muito intensos recalcados em longo histórico de exclusões e violências, tudo isso despejado numa armadilha mental segundo a qual o sentido da vida é se mostrar superior ao outro de forma violenta. Em meio a tudo isso, seres muito frágeis, tentando comer, habitar, existir, mas morrendo: obedecendo a uma antiga lógica, na luta do rochedo com o mar, quem mais sofre é o marisco. O que veio à sua mente, com essa descrição?
Dependendo da sua vida, do que o tem sensibilizado ultimamente, você pode ter imaginado, por exemplo, uma separação conjugal. Depois de anos de convivência, o casal se desfaz e, por cima de rostos que antes exprimiam tentativas de convergência, surgem máscaras de ódios que buscam avidamente cada um dos menores mal-entendidos para se alimentar e atacar. Os filhos? Estes são conscientemente ou não induzidos a entrar na guerra: agindo conforme as vontades dos lados, eles funcionam, para ambos, como escudos humanos. Você também pode ter lembrado, com a descrição inicial, de pessoas em seu local de trabalho que se detestam e disputam as mínimas coisas do dia-a-dia, exigindo que
todos tomem partido,entrem na guerra. Não percebem que a guerra foi criada por eles, que as pessoas próximas nada têm a ver com ela, e que assim fazem com que elas sejam torturadas pelos dois lados diariamente
Você pode, ainda, ter lembrado de moradores de uma favela. Em meio à difícil luta por arrumar trabalho, cuidar de filhos, administrar um lar e um relacionamento conjugal, milhares de homens e mulheres enfrentam todos os dias a guerra entre os traficantes e a polícia, na qual eles ficam exatamente no meio.
Há famílias nas favelas que têm um membro policial, mas nem por isso pretendem combater crimes, existem famílias que possuem pessoas envolvidas com o tráfico e nem por isso estão em guerra com a polícia, e há ainda outras que tentam apenas sobreviver. Se você tem se preocupado com o noticiário internacional, no entanto, você pensou na guerra entre judeus e palestinos. Pensou nos serviços, nas casas,
nas famílias destruídas e passando fome, sem atendimento nos hospitais. Pensou no ódio de um grupo e de um governo que só vêem sentido na vida se destruírem o outro, no ciclo interminável de ódio que jamais poderá ser enfrentado pelas armas, as quais evidentemente só podem recrudescê-lo.
Percebendo assim como está disseminada a violência, é muito comum que as pessoas se entreguem à desesperança, a uma sensação de fim de mundo. Mas você também poderá se perguntar: por que as pessoas alimentam tanto ódio? Como não percebem que sua atitude só aprofunda o problema? Por que conflitos tão diferentes desenvolvem-se de forma tão parecida e, é claro, haveria uma outra forma de serem enfrentados?
A própria realidade responde a essas perguntas. Pode-se, sim, desenvolver uma outra postura para abordar conflitos, e os exemplos surgem em todos os campos. Na separação conjugal e no judiciário, tem-se a guarda compartilhada e a Justiça Restaurativa; no campo do trabalho, busca-se cada vez mais formas sadias de abordagem de conflitos; setores da segurança pública já vêm avançando, há alguns anos, em iniciativas sociais de aproximação com a comunidade. A própria realidade O próprio grupo Rezbollah, que há poucos anos queria apenas matar judeus, descobriu no investimento em ações sociais uma maneira de se enraizar e proteger
como, de resto, também fazem os traficantes mais inteligentes descobriu no investimento em ações sociais uma maneira de se enraizar e proteger como, de resto, também fazem os traficantes mais inteligentes.
É muito bom perceber, nas situações de violência, um padrão comum de
enfrentamento de conflitos que só traz, e só pode trazer infelicidade. É importante conhecer esses outros padrões que estão em desenvolvimento superando, é claro, a mera estratégia oportunista. É urgente que nos preparemos e nos transformemos para atuar num padrão cooperativo e compreensivo, o único capaz de nos libertar do terrível círculo vicioso da violência no qual temos vivido.
MAURÍCIO DE ARAÚJO ZOMIGNANI Assistente Social e membro do Fórum da Cidadania de Santos.